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sábado, 14 de julho de 2012

A VOLTA NA QUADRA


Apesar de não ser minha intenção escrever um blog de memórias, vou me permitir iniciar essa crônica com uma pequena lembrança de infância. A julgar pela minha criação, eu poderia ser classificado como aquilo que é comumente chamado de “criança de apartamento”. Daquelas que jogam bola de gude no tapete da sala, nunca soltaram pipa ou ralaram o joelho andando de bicicleta. Porém, desde muito cedo também tive contato com a rua. Lembro que com seis para sete anos tinha meu grupo de amigos, todos moradores da mesma rua, com quem me reunia diariamente para brincar depois da aula. Às vezes, em dias mais reflexivos que ativos, quando o pique pega ou o futebol não nos atraía, gostávamos de conversar peripateticamente dando a volta na quadra. Então, saíamos andando calmamente da frente dos nossos prédios para direita ou para esquerda (para cima ou para baixo, uma vez que nossa rua era uma ladeira), enquanto debatíamos sobre as grandes questões que ocupavam o cotidiano da nossa infância. Que não deviam ser diferentes das questões que preocupavam qualquer outro garoto da nossa idade. Caminhávamos apenas pelo prazer de ver mudar a paisagem enquanto conversávamos, uma vez que o ponto de chegada era o mesmo da partida. Visto a partir de hoje, poderia dizer que essa foi a minha primeira experiência com o flanar. Não lembro mais quanto tempo levávamos nessa aventura pelos arredores de nossas casas. Não devia ser muito. Mas era, certamente, tempo suficiente para que minha mãe se desse conta da minha ausência e ficasse, desesperadamente, chamando meu nome da janela de casa, sem saber onde me meti.
Essa minha primeira “aventura urbana” serviu não apenas para que eu perdesse, desde cedo, o medo da rua, mas também para que eu desenvolvesse o meu amor pela cidade. Amor que deveria ser cultivado desde cedo por todo mundo. A rua deveria fazer parte do processo de descoberta do mundo da criança, da mesma forma que ela descobre os livros quando está sendo alfabetizada. Sempre me intrigou a falta de intimidade de algumas pessoas com o espaço no qual ela está inserida. Basta pedir uma informação para ver como as pessoas desconhecem a cidade onde vivem. Mas o conhecimento do espaço urbano não é apenas o domínio do mapa da cidade, mas também da vida urbana e de seus personagens. Daqueles atores que estão na rua: o jornaleiro, o carteiro, o mendigo, etc. Por isso, entrar em contato com a rua é entrar em contato com a alteridade que se encontra para além do seu círculo familiar mais íntimo. E esse contato com o outro, travado ainda durante a formação da sua personalidade, pode impedir que a criança seja criada em um “aquário”, cultivando verdades absolutas que não são postas à prova pela falta de trato com o diferente. A “volta na quadra” faz com que a casa e a rua se tornem espaços complementares, em vez de opostos.
À medida que eu crescia, a minha volta na quadra foi ganhando em complexidade. Na adolescência já havia adquirido o hábito de caminhar. Se algum compromisso pudesse ser cumprido à pé, não me passava pela cabeça utilizar qualquer outro meio de transporte. E mesmo por vezes, em tardes ociosas, gostava de caminhar sem destino certo, apenas pelo prazer de conhecer as ruas e seus personagens. Com 15 anos já conhecia a maior parte das ruas do meu bairro, incluindo atalhos, becos e mesmo as ruas sem saída. Conseguia chegar relativamente rápido a qualquer ponto que tivesse que ir: colégio, cinema, casa de amigos, dentista. Bom, para esse último não havia pressa. E, então, meu conhecimento e amor pela rua poderia me fazer escolher o caminho mais longo. Um pouco mais tarde, quando o meu bairro se tornou pequeno, a minha volta na quadra começou a ganhar ares de uma aventura real. Então, tomava um ônibus para outro bairro e descia em um ponto aleatório para repetir ali o mesmo que já havia feito nos arredores de casa. Andava pelas suas ruas, conhecendo os seus caminhos, gravando pontos de referência, entrando em contato com outros tipos urbanos. Essa aventura contava com um componente adicional, que era o seu real desafio: conseguir encontrar o caminho de volta pra casa.   
Talvez devido à minha precoce experiência com a rua, acho curioso, e mesmo problemático, perceber que cada vez mais o individualismo que caracteriza não só a nossa sociedade como o nosso tempo, gera pessoas que não tem o mínimo apreço pelo espaço urbano. Incluindo aí o mínimo apreço pelo contato com o outro. O afastamento da rua, entendido apenas como local de passagem obrigatória, o enclausuramento em casa, tem produzido pessoas cada vez menos aptas à vida em sociedade. Que se fecham em condomínios afastados do centro, cercados por muros e guaritas de segurança, e que apenas espiam a rua através da janela da sua casa ou do seu carro com medo, desconfiança e repulsa. Pessoas que evitam, até mesmo, o contato com os próprios vizinhos e que, quando são obrigados a interagir com o outro, o fazem de má vontade, demonstrando desconhecimento das regras mais básicas de sociabilidade. Essas pessoas têm a ilusão de que podem viver isoladas da cidade. Tem gerado, mais do que isso, cidadãos que não se importam com os problemas da sua cidade. Bastando que haja luz no poste em frente ao seu portão e que a sua rua esteja com o asfalto em condições mínimas de conservação para que ele passe com o seu carro. Esse tipo, que só pode ser chamado de cidadão por um uso muito flexível do termo, não exige do Estado ou do seu candidato a prefeito que ele apresente um projeto de cidade. E vota repetidamente no mesmo charlatão que, ao longo do seu mandato, asfalta três vezes a mesma avenida, afirmando estar realizando “grandes obras de urbanização”. Não percebe que o seu descaso ajuda a tornar a cidade um lugar cada vez pior não só para aqueles que vivem no e do espaço urbano, mas também para ele próprio. Não compreendem que a sua qualidade de vida, tão arduamente buscada pela construção de uma casa confortável e segura, depende de uma cidade igualmente confortável e segura.
A “volta na quadra” não é apenas uma diversão de criança. É uma necessidade. É o que nos faz cidadãos de fato. Não há idade certa para que você coloque a cara portas afora e comece a conhecer a sua vizinhança, seus caminhos, seus pontos de referência, seus personagens e também seus problemas. Não há idade limite para a expansão dos seus horizontes físicos, que deve ser também a expansão dos seus horizontes psicológicos, mentais, intelectuais ou o nome que se queira dar. Basta ter a vontade de começar a andar. Pois, como dizia outro poeta: “Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

SE NÃO PUDER FLANAR, VÁ DE ÔNIBUS


Recentemente, o ex-prefeito de Bogotá entre 1998 e 2001, Enrique Peñalosa Londoño, esteve no Brasil e falou uma frase que foi muito reproduzida pelas redes sociais afora (mas, infelizmente, nunca repetida por nenhum prefeito no Brasil). Ele disse algo do tipo: “Uma boa cidade não é aquela em que até os pobres andam de carro, mas aquela em que até os ricos usam transporte público”. Para boa parte da nossa sociedade pode parecer até uma piada de mal gosto que alguém em sã consciência sugira que se dê preferência ao transporte público em vez do transporte particular. E, de fato, o transporte público no Brasil é caótico. A oferta é pequena, é inseguro, desconfortável, não é pontual e, ainda por cima, é caro. É assim porque as empresas que detém a concessão do transporte público hoje, pelo menos no Rio de Janeiro, de uma forma geral não estão preocupadas em atender à necessidade dos usuários e sim as necessidades dos donos. Que é uma só: ter lucro. Por isso, o investimento no sistema é mínimo. Ônibus e trens circulam em péssimo estado de conservação, gerando quebras e atrasos.
Por isso, quem tem condições opta por comprar um carro. Opção mais do que legítima, uma vez que ninguém pode ficar chegando constantemente atrasado no trabalho porque o ônibus não passou ou porque o metrô estava tão lotado que não dava nem pra entrar. Isso sem contar no grande lobby das montadoras de automóvel, que entopem a televisão de propaganda e nos fazem sonhar em ter nosso próprio carrinho desde que somos bebês. A ponto de os maiores sonhos de consumo do brasileiro médio serem, desde pelo menos a década de 1970, a casa própria e o carro próprio (mas isso é assunto para outro texto). É urgente, porém, que a sociedade brasileira tome a consciência de que se todos continuarmos optando pelo transporte particular as cidades irão parar mais cedo ou mais tarde. Já tem algum tempo que os paulistas experimentam essa verdade. A solução para o deslocamento urbano nas grandes e médias cidades é o transporte coletivo e apenas ele. Bastam duas imagens para se comprovar esse fato. Uma delas reproduz a frase de Londoño.



O fato é que, apesar de todas as dificuldades, ou devido a elas mesmas, nós temos que inverter essa lógica. O brasileiro tem que parar de pensar individualmente e passar a pensar coletivamente. Em vez de ficar juntando dinheiro e, muitas vezes, se endividar irremediavelmente para comprar e manter um carro, tem que começar a exigir um transporte público de qualidade: seguro, pontual, confortável e, se possível, por que não, barato. Tem que começar a exigir que as empresas de transporte melhorem seu serviço. Em um setor que se caracteriza pela inércia, se nós não cobrarmos nunca nada vai mudar. Tem que, principalmente, começar a votar em políticos que estejam realmente comprometidos em resolver os problemas da cidade. E o trânsito talvez seja hoje um dos piores deles. E não em políticos que têm ligações escusas com as empresas de transporte, que ganham dinheiro em cima do monopólio das empresas de ônibus, que as defendem das reivindicações da sociedade e das ações do Ministério Público. Transporte público é serviço de utilidade pública, não pode ser fonte de renda! Eu sei que o texto assumiu um tom panfletário e, até mesmo, com pitadas de utopia. Mas se não deixarmos nosso individualismo de lado e começarmos já a lutar por um transporte público de qualidade, de nada adiantará você ter um carro, pois irá tirar o seu carro da garagem na hora de ir para o trabalho apenas para ficar engarrafado 10 metros adiante.


terça-feira, 10 de julho de 2012

NOTAS MENTAIS


Da última vez em que fui pegar o metrô no Rio notei uma “novidade” nas estações. Escrevi novidade entre aspas porque, na verdade, não sei exatamente há quanto tempo se deu essa mudança. Uma vez que fazia mais de um mês que eu não andava de metrô. Não, não estou me referindo ao preço da passagem, que subiu de novo. Notei, isso sim, que retiraram os relógios das plataformas. Muita gente pode não sentir a mínima falta deles, mas os relógios fazem parte das minhas mais antigas lembranças do metrô. Primeiro eles eram grandes e analógicos. Lembravam os relógios das estações de trem art-decó da década de 1930. Quando o metrô foi privatizado, trocaram por relógios digitais retangulares, muito menos charmosos mas igualmente funcionais. E agora os suportes continuam lá, mas estão vazios. Fico pensando qual terá sido o motivo da mudança. Será que as “cabeças pensantes” (pilhas de aspas aqui) da empresa resolveram tirar os relógios para que os passageiros não fiquem calculando quanto tempo ficam plantados na plataforma esperando o trem? Bom... da última vez que calculei, o intervalo entre os trens era de intermináveis 4 minutos. Mas esse tempo vinha aumentando progressivamente desde que as duas linhas passaram a trafegar no mesmo trilho. Agora é esperar para ver se vão colocar algo no lugar. Talvez uma cabeça de palhaço. Rindo para (dos) usuários. Seria simpático.

domingo, 13 de maio de 2012

PEDAÇOS DE CIDADE

Ainda mais uma vez, vou publicar uma crônica escrita há muito tempo atrás. Apesar de já ter terminado a tese, ainda não consegui focar a cabeça para voltar a pensar em crônicas. Mas, agora é só uma questão de concentração. Essa crônica é um pouco diferente das outras que venho postando. É uma mistura de crônica e pesquisa histórica, sobre um monumento desaparecido do Rio de Janeiro. Dá para notar que ela é um pouco maior e contém muita informação e pouca reflexão. Foi escrita originalmente para ser publicada na coluna Memórias do Centro, da Folha do Centro, um periódico de circulação local que é (ou era. Não sei se ainda existe) distribuído gratuitamente. Essa é a segunda versão da crônica, que contou com algumas pequenas modificações feitas pelo meu grande amigo Felipe Eugênio. Espero que gostem.



Jalousies da Capela? Histórias do Recolhimento de Nossa Senhora do Parto


Não faz muito, um jornal de grande circulação na cidade publicou o resultado controverso de uma pesquisa, de finalidade duvidosa, que afirmava ser a carioca a mulher mais infiel do Brasil. Verídico ou não tal resultado, o melhor é não querer confirmá-lo, pela boa reputação de maridos, noivos e namorados da Cidade. Mais interessante é notar que tal infidelidade (se a há, é prudente manter a duvida) não é comportamento recente. Em artigo denominado Brasil de todos os Pecados, o professor Ronaldo Vainfas relata casos de traição (condenada, então, como pecado) ocorridos nos tempos do Brasil Colônia. Padres jesuítas e outros cronistas do tempo colonial eram incansáveis em denunciar e lastimar a “dissolução dos costumes”, que grassava na terra.
O que poucos moradores do Rio de Janeiro de hoje sabem é que, justamente nos tempos coloniais já existiu na cidade uma casa de recolhimento destinada a mulheres desonestas que estivessem arrependidas do seu mau passo. Tal era a finalidade do Recolhimento de Nossa Senhora do Parto, inaugurado em 1759, construído ao lado da capela de Nossa Senhora do Parto, erigida 110 anos antes (em 1649) por um carpinteiro mulato de nome João Fernandes. Este acabara de chegar ao Rio, vindo da Ilha da Madeira, trazendo consigo uma imagem daquela santa, e comprou um terreno para dar-lhe casa própria e condigna, construindo-a com os seus recursos e os de seus amigos. Já a construção do Recolhimento começou em 1742, e foi o bispo D. Frei Antonio do Desterro Malheiros que a principiou aplicando, para tanto, 40.000 cruzados deixados por um comerciante de nome Estevão Dias de Oliveira para serem distribuídos a bem da sua alma, depois de satisfeitos certos legados.
Estavam, o Recolhimento e a Capela, situados na Rua dos Ourives, se estendendo da Rua São José à da Assembléia, dando a impressão de formar um só conjunto. A rua dos Ourives ia desde a rua São José até a subida do Morro da Conceição. Antes de ganhar fama como dos Ourives, por nela se concentrarem os artesãos dessa especialidade, no século XVIII, era conhecida como o caminho da Conceição para o Parto (ou vice-versa), devido à existência, em sua extremidade sul, da Capela e do Recolhimento. A abertura da Avenida Rio Branco (1903-1906) a cortou em duas partes, sendo a parte que vai da rua São José à citada Avenida a atual rua Rodrigo Silva, e a que segue da Avenida ao morro da Conceição a atual rua Miguel Couto.
Sobre o aspecto da Capela, Joaquim Manuel de Macedo (romancista, cronista e professor de História do Colégio Pedro II nos tempos do Império) dizia que seu aspecto exterior era triste e sem majestade, afirmando que “a arquitetura não se ocupou dele nem metade de um minuto”. O Recolhimento tinha três pavimentos: o térreo contava com uma portaria ladeada de janelas e diversas oficinas; os 2º e 3º pavimentos tinham, para a rua dos Ourives, 17 e 18 janelas de peitoril (respectivamente); e, para as ruas São José e da Assembléia, duas janelas em cada pavimento.
   Apesar da finalidade de recolher mulheres que perdiam a virgindade em aventuras casuais, que desejassem deixar a perversidade do século para ali reformar os costumes repreensíveis, trocando-os por santo e regular comportamento (nas palavras de Joaquim Manuel de Macedo), não eram somente as arrependidas que entravam para o novo asilo. Macedo e Gastão Cruls (cronista do início do século XX) afirmam que, apesar do Recolhimento ter por fim receber mulheres convertidas ou as que estivessem descontentes com a vida conjugal, quase sempre eram os maridos que não estavam contentes com elas e ali as internavam. Segundo Macedo que lamentáveis abusos misturaram no Recolhimento esposas inocentes com esposas culpadas. Muitos homens se aproveitaram do asilo como uma arma de prepotência e disciplina doméstica, tornando-se aquele uma espécie de casa de correção feminina. Uma espécie de cadeia que fazia medo não só às más esposas como às esposas de maus maridos, e também às moças solteiras filhas de pais enfezados, cabeçudos e prepotentes. Afirma ainda Macedo que não havia fervura de briga de marido e mulher que não se abatesse com o encanto das terríveis palavras: “Olha o Recolhimento do Parto!”. As mulheres, em suas conversas, denominavam-lhe de Recolhimento do Desterro. Não porque ficasse próximo ao morro do Desterro (atual Morro de Santa Teresa), mas porque aquele asilo era, para elas, um desterro. E não só as casadas o maldiziam, mas também as solteiras, pois encerravam-se ali meninas e moças que ainda não haviam chegado na idade de casar a pretexto de irem receber educação moral e religiosa. Tudo isso, fruto da jalousie des hommes, o afrancesamento da palavra pontiaguda e peçonhenta: o ciúme masculino.
Apesar da solicitude do seu fundador que, ainda em seu testamento, legou 100$000 para este asilo, foi ele decaindo por falta de recursos. Porém, o Vice-Rei Luís de Vasconcelos (1779-1790) recuperou o Recolhimento e a Capela a partir de 1787. Segundo Moreira de Azevedo (outro cronista do Império), ainda trabalhava-se no interior da igreja quando o acaso ou o crime deu origem a um incêndio, nas primeiras horas do dia 24 de agosto de 1789, o qual consumiu a igreja e teria destruído também o Recolhimento se não fossem as prontas e enérgicas providências do Vice-Rei. Apenas extinto o fogo, cuidou ele em reconstruir os edifícios incendiados, encarregando da direção da obra ao Mestre Valentim da Fonseca e Silva (o mesmo que construiu o chafariz da Pirâmide, até hoje existente na Praça XV). Concluindo-se a reedificação em 3 meses e 17 dias, em 8 de dezembro do mesmo ano voltaram as recolhidas (que estavam abrigadas no Hospital da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência) em procissão para a sua casa, acompanhando a imagem de Nossa Senhora do Parto, a única que se salvara das chamas.

O incêndio do Recolhimento de Nossa Senhora do Parto, em pintura de Francisco Muzzi de 1789.

A partir de 1812, foi extinto o Recolhimento e foram as recolhidas transferidas para a Santa Casa de Misericórdia. Seu prédio transformou-se em Hospital da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo. Isso porque, chegando ao Rio de Janeiro em 1808, a Família Real Portuguesa solicitou o pavimento superior do edifício do Convento do Carmo, onde ficava o Hospital, para acomodar a Biblioteca do Palácio da Ajuda, que havia sido trazida de Portugal. Mas, sendo insuficiente apenas o pavimento superior, em Aviso de 3 de novembro de 1812, mandou o Governo desocupar o prédio do Recolhimento do Parto e determinou que a Ordem do Carmo mudasse para ali os doentes, deixando vazio também o pavimento térreo do Convento.
Em 1870, quando Moreira de Azevedo publicou sua obra, o edifício era ocupado pela Inspetoria de Instrução Pública, pelo Arquivo Público e pelo Instituto Vacínico. Foi, por fim, demolido em 1906, para o alargamento da rua da Assembléia, durante as reformas urbanas do prefeito Francisco Pereira Passos. Já então, os costumes eram outros e as mulheres que havendo pecado mundo, não careciam mais de ir, na solidão, suplicar ao céu o perdão e o esquecimento de suas faltas. Imaginaram um novo fim para a Capitu de Machado, não? Eu também. E ela escapou por pouco, pouquinho...

A capela de Nossa Senhora do Parto fica hoje no interior do prédio na rua Rodrigo Silva localizado onde antes existiam o Recolhimento e a Capela.

domingo, 1 de abril de 2012

SEGUNDO REENCONTRO

Vou publicar hoje a última das minhas crônicas antigas que tinha guardadas. Espero conseguir superar logo essa crise criativa e escrever novas crônicas para não deixar esse blog abandonado de novo. Essa crônica é quase uma continuação da anterior. Escrita na mesma época. Logo depois de ter terminado o meu mestrado. O que procurei registrar com uma linguagem pretensamente poética foi, simplesmente, o primeiro churrasco a que compareci depois de quase dois anos de reclusão. Vamos a ele.



REENCONTRO (PARTE 2)

Ele virou a esquina e subiu a ladeira. Conhecia aquele lugar. Eram a mesma esquina e a mesma ladeira de outras tantas vezes. No fim da ladeira, as escadas. Também as tinha subido muitas vezes antes. Conhecia o esforço. A palpitação que provocava, qual uma paixão. O que, ao fim e ao cabo não deixava de sê-lo. As esquinas, ladeiras, escadas e morros daquela Cidade eram a sua mais forte e duradoura paixão. A única que atravessava os anos sem arrefecer. Com um desentendimento aqui, outro ali, e muitos períodos de afastamento, como toda paixão.
Mas, aquele havia sido o maior de todos. E o cansaço que sentiu ao subir dessa vez lhe deu bem a noção do tamanho do seu isolamento. O fez sentir no corpo, literalmente, por quanto tempo esteve ausente. O esforço foi maior não porque a sua ansiedade o fizesse subi-la correndo. Já havia cometido esse erro antes e sabia que aquela escadaria tinha que ser galgada sem pressa. Subiu, mesmo, muito mais lentamente do que nas vezes anteriores. Observando todo o cenário em volta, que também conhecia bem. Respirando fundo, como que querendo absorver cada árvore, cada fachada de casa, a lateral da igrejinha no alto da escada. Querendo ressuscitar as cores já esmaecidas do quadro que guardava na memória.
Por fim chegou. A casa, as pessoas eram suas velhas conhecidas. Senão todas, pelo menos a maioria. Com aquela tivera um affair, aquela outra havia sido sua vizinha, por uma terceira havia sido loucamente apaixonado. Outros tantos foram, por muito tempo, sua companhia nas incertezas da noite na Cidade. A noite e a Cidade, que a todos unia. Mas da qual esteve, durante tanto tempo ausente. Lembrava do prazer da companhia daquelas pessoas. Mas, por algum motivo que não sabia explicar, não conseguiu senti-lo. Naquele momento eram todos, no mínimo, completos estranhos para ele. Reconhecia os rostos, e se alegrava com isso. Mas não conseguia ver além daquelas máscaras. Foi bem recebido. Como um amigo que retorna de uma longa viagem, o que de fato era afinal. Mas não se sentia à vontade. Sentia-se como que chegado a um baile que já vai adiantado. Quando a orquestra já cansou de tocar, os casais já estão formados e não se sabe se haverá uma próxima dança, e nem quem se pode tirar para bailar.
Fez o óbvio. Isolou-se na multidão para tentar se entender. Abdicou de interagir e preferiu observar. Então, as coisas perderam a nitidez. A música que tocava pareceu-lhe um ruído distante e os corpos bailando no espaço estavam envoltos em uma névoa. Naquele momento olhava para dentro de si mesmo. Procurava palavras que pudessem exprimir o que sentia. As tinha dentro de si. Caçava-as. Mas não conseguia encontrá-las. Ao abrir os olhos, não mais do que de repente deparou-se com ela. Estava ali. Inteirinha à sua frente. Aquela vista linda que, como um quadro, fazia parte daquele lugar. Cenário que impunha a sua presença pela sua beleza. Ignorá-lo seria impossível. Por mais esforço que se fizesse nesse sentido. A impressão que se tinha era a de que, mesmo que fechássemos os olhos, o continuaríamos vendo. Os telhados, a mata, a chaminé da fábrica, os morros que cortavam o céu imenso, infinitamente azul, e que como uma muralha iluminada com múltiplos e minúsculos pontos de luz, fechava todo o horizonte. Demarcando um limite para a visão, diriam os geógrafos mais afoitos. Mas, definitivamente não! Aquela vista não tinha limites. Ela se apresentava toda, inteira, como que nua, à sua retina.
Só então, ao contemplar aquela vista, ele encontrou o que faltava. Ou melhor, re-encontrou. Reencontrou o que estava perdido dentro de si. O amor que tinha por aquela Cidade. Continuava linda, a sua eterna amante. E essa constatação o encheu de uma calma alegria. Aquela alegria que se sente quando sabemos que, mesmo que agora outras bocas a beijem e outras mãos a afaguem, ela continua linda como da última vez que a deixamos. Alegria que não se explica, mas que alguns chamam de amor. E o amor não é, absolutamente egoísta. Se toda vez que voltasse, ela se apresentasse para ele assim, linda como da última vez, ele não pediria mais nada. Nem um beijo, nem um abraço. Só queria poder contemplá-la de longe, em silêncio, uma vez mais.
Ao reencontrar o que sentia, reencontrou tudo o que faltava. Aquele sentimento a tudo preenchia e a tudo dava sentido. Agora ouvia claramente o samba, via nitidamente as cabrochas a dançarem e os rapazes a cortejá-las. E entendia que tudo aquilo era parte daquela que ele amava. Então riu, bebeu, conversou, bailou, conheceu pessoas, estranhou outras. Brindou ao (re)nascimento daquele sentimento que nunca morre. Pois, como diz o poeta, o amor que morre é uma ilusão. O verdadeiro amor, esse, não fenece nunca. Na manhã seguinte, a escadaria que desceu era outra escadaria, e a sua companhia era ela. Não a moça nova, cujos encantos o seduziram naquela noite. Mas mesma de sempre. A Cidade, sua eterna amante.



Agosto de 2006