Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador urbanismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador urbanismo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 28 de março de 2013

ÁGUAS DE MARÇO


Tradicionalmente no Brasil, com a chegada do mês de março chegam também as chuvas que anunciam o final do verão e a entrada no Outono. E tradicionalmente também, infelizmente, com essas chuvas vem os alagamentos, as enchentes, os deslizamentos de encostas, que assumem proporções de tragédia à medida que os centros urbanos crescem sem nenhum planejamento e sem nenhum controle por parte dos poderes públicos. Mais uma vez nesse ano, como vem acontecendo nos últimos anos, a região serrana do Rio de Janeiro foi assolada por uma enchente que deixou 13 mortos em Petrópolis em um único dia de chuva. É chover no molhado, com o perdão do trocadilho, apontar a irresponsabilidade dos poderes públicos municipais, estadual e Federal nesses casos. O poder público, que já não ordena a ocupação do solo, também não faze nada para, ao menos, remediar os danos causados anualmente pelas chuvas de março ou evitar que essas tragédias anunciadas continuem se repetindo a cada ano como uma tradição bizarra. A perda de centenas de vidas e a destruição de centros urbanos inteiros parece não ser suficiente para sensibilizar as nossas autoridades.

Mas, outro aspecto dessa situação me chama a atenção e me faz refletir. O caso é que, já também tradicionalmente, quando começam as chuvas de março, os meios de comunicação de massa colocam nas pautas dos seus telejornais reportagens a respeito de como se evitar os efeitos mais perigosos dos temporais. São dicas e conselhos que vão dos mais irrealizáveis como abandonar as moradias em área de risco (como se quem morasse em área de risco tivesse outro lugar onde se abrigar), até os mais simples como não jogar lixo nas ruas para que eles não entupam os bueiros e não causem alagamentos e enchentes. O que me chama a atenção é que essas reportagens, geralmente ilustradas com entrevistas com técnicos da Defesa Civil ou outras autoridades no assunto, jogam toda a responsabilidade de se evitar as enchentes em cima dos cidadãos, que são as principais vítimas dessas enchentes. Ou seja, se a sua rua enche e a lama invade a sua casa a culpa é só sua que jogou lixo na rua. Ou em cima de São Pedro que, coitado, não pode nem se defender. Tudo que pode fazer é mandar mais chuva como forma de protesto. Não se discute, nessas reportagens, a responsabilidades do poder público municipal na coleta do lixo que fica espalhado na rua, na realização de obras contra as chuvas (que devem ser realizadas antes do período de chuvas, é óbvio), no controle do uso e ocupação do solo, etc.

E não se discute, sobretudo, a responsabilidade do poder público em outra área que, a princípio pode não parecer, mas está diretamente relacionada a esse tema: na oferta de uma educação pública de qualidade. O fato é que os poderes públicos municipais, estaduais e Federal no Brasil vem sucateando a educação durante, pelo menos, cinco décadas. Primeiro, retirando dos currículos todos os conteúdos críticos, reduzindo a carga horária das aulas de história, geografia, sociologia, e fazendo uma educação cada vez mais técnica que não visava formar cidadãos e sim trabalhadores. Ou melhor, a formar “operários-padrão”, que produzissem bem e reclamassem pouco. E, mais recentemente, mantendo todo o sistema educacional em uma situação da mais extrema penúria de investimentos, onde falta de tudo: desde giz até professores. Esses últimos também deixados em situação de igual penúria, para a qual a única forma de protesto são as constantes greves que dão muito pouco, ou nenhum, resultado. No intuito de evitar a formação de cidadãos críticos e conscientes, que poderiam representar um perigo para os seus interesses, nossos políticos acabaram criando uma massa de semi-analfabetos e analfabetos funcionais que, apesar de passarem 9 a 10 anos na escola para concluir o ensino básico (os que concluem, é óbvio), não sabem sequer escrever na língua pátria. E que são incapazes de relacionar a enchente de hoje com o voto que colocou na urna em outubro passado. É preciso deixar claro, mais uma vez o meu ponto de vista: essas pessoas são vítimas e não culpadas. São vítimas do descaso do Estado em garantir os seus direitos mais básicos. Como o direito à educação gratuita e de qualidade. A questão é que, se as enchentes são causadas pelo lixo jogado na rua e o lixo na rua é causado pela falta de educação da população, então a responsabilidade pelas enchentes, e pelas tragédias que as seguem, continua sendo do Estado.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

MOBILIDADE URBANA

Hoje eu quero compartilhar uma matéria do portal PUC-Rio digital que fala sobre mobilidade urbana. Você tem a impressão de que está levando mais tempo do que antes para chegar ao trabalho ou para ir para a casa. A partir dessa matéria você pode ter certeza de que não é só impressão. Não só você, mas todos os cariocas estão perdendo mais tempo das suas vidas no trânsito. Pesquisa do IBGE aponta a região metropolitana do Rio de Janeiro como a pior do país no quesito mobilidade urbana. 

Curiosidade histórica: você sabia que a Avenida Presidente Vargas já foi considerada exageradamente larga na época da sua construção?

Além desse dado, a matéria aborda dados interessantes a respeito das medidas que estão sendo tomadas hoje para melhorar a mobilidade urbana da cidade para os megaeventos que se aproximam. Será que elas atingirão os seus objetivos? Uma cidade com a extensão do Rio, onde você só mora perto do seu trabalho se for muito sortudo (ou se trabalhar em casa) tem que ter uma política de transporte que não se baseie no rodoviarismo.

Confira a matéria no link: 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

PENSANDO A CIDADE

Hoje eu publico uma matéria que foi originalmente publicada na Revista de História da Biblioteca Nacional e que nos faz pensar quais são os projetos de cidade que vêm sendo implementados no Rio de Janeiro desde meados do século passado. Como escreve o autor da matéria, um projeto rodoviarista e segregador. Orientação que não mudou até os dias atuais. E nos faz pensar também nas reformas urbanísticas que estão sendo feitas para os mega-eventos que a cidade vai abrigar. Será que essas reformas realmente vão beneficiar os moradores da cidade? Será que é esse o projeto de cidade que nós queremos? Eu sempre afirmei que a Barra da Tijuca é a "negação do urbano" no Rio de Janeiro. Depois de ler essa matéria fiquei ainda mais convencido disso.


Segue o link:
http://www.revistadehistoria.com.br/secao/reportagem/urbanismo-para-quem




P.S.: O professor Antonio Edmílson Martins Rodrigues, entrevistado na matéria, foi meu professor de História do Rio de Janeiro na graduação e quem me ensinou que pensar a cidade e vivenciá-la são tarefas complementares e inseparáveis.

sábado, 14 de julho de 2012

A VOLTA NA QUADRA


Apesar de não ser minha intenção escrever um blog de memórias, vou me permitir iniciar essa crônica com uma pequena lembrança de infância. A julgar pela minha criação, eu poderia ser classificado como aquilo que é comumente chamado de “criança de apartamento”. Daquelas que jogam bola de gude no tapete da sala, nunca soltaram pipa ou ralaram o joelho andando de bicicleta. Porém, desde muito cedo também tive contato com a rua. Lembro que com seis para sete anos tinha meu grupo de amigos, todos moradores da mesma rua, com quem me reunia diariamente para brincar depois da aula. Às vezes, em dias mais reflexivos que ativos, quando o pique pega ou o futebol não nos atraía, gostávamos de conversar peripateticamente dando a volta na quadra. Então, saíamos andando calmamente da frente dos nossos prédios para direita ou para esquerda (para cima ou para baixo, uma vez que nossa rua era uma ladeira), enquanto debatíamos sobre as grandes questões que ocupavam o cotidiano da nossa infância. Que não deviam ser diferentes das questões que preocupavam qualquer outro garoto da nossa idade. Caminhávamos apenas pelo prazer de ver mudar a paisagem enquanto conversávamos, uma vez que o ponto de chegada era o mesmo da partida. Visto a partir de hoje, poderia dizer que essa foi a minha primeira experiência com o flanar. Não lembro mais quanto tempo levávamos nessa aventura pelos arredores de nossas casas. Não devia ser muito. Mas era, certamente, tempo suficiente para que minha mãe se desse conta da minha ausência e ficasse, desesperadamente, chamando meu nome da janela de casa, sem saber onde me meti.
Essa minha primeira “aventura urbana” serviu não apenas para que eu perdesse, desde cedo, o medo da rua, mas também para que eu desenvolvesse o meu amor pela cidade. Amor que deveria ser cultivado desde cedo por todo mundo. A rua deveria fazer parte do processo de descoberta do mundo da criança, da mesma forma que ela descobre os livros quando está sendo alfabetizada. Sempre me intrigou a falta de intimidade de algumas pessoas com o espaço no qual ela está inserida. Basta pedir uma informação para ver como as pessoas desconhecem a cidade onde vivem. Mas o conhecimento do espaço urbano não é apenas o domínio do mapa da cidade, mas também da vida urbana e de seus personagens. Daqueles atores que estão na rua: o jornaleiro, o carteiro, o mendigo, etc. Por isso, entrar em contato com a rua é entrar em contato com a alteridade que se encontra para além do seu círculo familiar mais íntimo. E esse contato com o outro, travado ainda durante a formação da sua personalidade, pode impedir que a criança seja criada em um “aquário”, cultivando verdades absolutas que não são postas à prova pela falta de trato com o diferente. A “volta na quadra” faz com que a casa e a rua se tornem espaços complementares, em vez de opostos.
À medida que eu crescia, a minha volta na quadra foi ganhando em complexidade. Na adolescência já havia adquirido o hábito de caminhar. Se algum compromisso pudesse ser cumprido à pé, não me passava pela cabeça utilizar qualquer outro meio de transporte. E mesmo por vezes, em tardes ociosas, gostava de caminhar sem destino certo, apenas pelo prazer de conhecer as ruas e seus personagens. Com 15 anos já conhecia a maior parte das ruas do meu bairro, incluindo atalhos, becos e mesmo as ruas sem saída. Conseguia chegar relativamente rápido a qualquer ponto que tivesse que ir: colégio, cinema, casa de amigos, dentista. Bom, para esse último não havia pressa. E, então, meu conhecimento e amor pela rua poderia me fazer escolher o caminho mais longo. Um pouco mais tarde, quando o meu bairro se tornou pequeno, a minha volta na quadra começou a ganhar ares de uma aventura real. Então, tomava um ônibus para outro bairro e descia em um ponto aleatório para repetir ali o mesmo que já havia feito nos arredores de casa. Andava pelas suas ruas, conhecendo os seus caminhos, gravando pontos de referência, entrando em contato com outros tipos urbanos. Essa aventura contava com um componente adicional, que era o seu real desafio: conseguir encontrar o caminho de volta pra casa.   
Talvez devido à minha precoce experiência com a rua, acho curioso, e mesmo problemático, perceber que cada vez mais o individualismo que caracteriza não só a nossa sociedade como o nosso tempo, gera pessoas que não tem o mínimo apreço pelo espaço urbano. Incluindo aí o mínimo apreço pelo contato com o outro. O afastamento da rua, entendido apenas como local de passagem obrigatória, o enclausuramento em casa, tem produzido pessoas cada vez menos aptas à vida em sociedade. Que se fecham em condomínios afastados do centro, cercados por muros e guaritas de segurança, e que apenas espiam a rua através da janela da sua casa ou do seu carro com medo, desconfiança e repulsa. Pessoas que evitam, até mesmo, o contato com os próprios vizinhos e que, quando são obrigados a interagir com o outro, o fazem de má vontade, demonstrando desconhecimento das regras mais básicas de sociabilidade. Essas pessoas têm a ilusão de que podem viver isoladas da cidade. Tem gerado, mais do que isso, cidadãos que não se importam com os problemas da sua cidade. Bastando que haja luz no poste em frente ao seu portão e que a sua rua esteja com o asfalto em condições mínimas de conservação para que ele passe com o seu carro. Esse tipo, que só pode ser chamado de cidadão por um uso muito flexível do termo, não exige do Estado ou do seu candidato a prefeito que ele apresente um projeto de cidade. E vota repetidamente no mesmo charlatão que, ao longo do seu mandato, asfalta três vezes a mesma avenida, afirmando estar realizando “grandes obras de urbanização”. Não percebe que o seu descaso ajuda a tornar a cidade um lugar cada vez pior não só para aqueles que vivem no e do espaço urbano, mas também para ele próprio. Não compreendem que a sua qualidade de vida, tão arduamente buscada pela construção de uma casa confortável e segura, depende de uma cidade igualmente confortável e segura.
A “volta na quadra” não é apenas uma diversão de criança. É uma necessidade. É o que nos faz cidadãos de fato. Não há idade certa para que você coloque a cara portas afora e comece a conhecer a sua vizinhança, seus caminhos, seus pontos de referência, seus personagens e também seus problemas. Não há idade limite para a expansão dos seus horizontes físicos, que deve ser também a expansão dos seus horizontes psicológicos, mentais, intelectuais ou o nome que se queira dar. Basta ter a vontade de começar a andar. Pois, como dizia outro poeta: “Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

SE NÃO PUDER FLANAR, VÁ DE ÔNIBUS


Recentemente, o ex-prefeito de Bogotá entre 1998 e 2001, Enrique Peñalosa Londoño, esteve no Brasil e falou uma frase que foi muito reproduzida pelas redes sociais afora (mas, infelizmente, nunca repetida por nenhum prefeito no Brasil). Ele disse algo do tipo: “Uma boa cidade não é aquela em que até os pobres andam de carro, mas aquela em que até os ricos usam transporte público”. Para boa parte da nossa sociedade pode parecer até uma piada de mal gosto que alguém em sã consciência sugira que se dê preferência ao transporte público em vez do transporte particular. E, de fato, o transporte público no Brasil é caótico. A oferta é pequena, é inseguro, desconfortável, não é pontual e, ainda por cima, é caro. É assim porque as empresas que detém a concessão do transporte público hoje, pelo menos no Rio de Janeiro, de uma forma geral não estão preocupadas em atender à necessidade dos usuários e sim as necessidades dos donos. Que é uma só: ter lucro. Por isso, o investimento no sistema é mínimo. Ônibus e trens circulam em péssimo estado de conservação, gerando quebras e atrasos.
Por isso, quem tem condições opta por comprar um carro. Opção mais do que legítima, uma vez que ninguém pode ficar chegando constantemente atrasado no trabalho porque o ônibus não passou ou porque o metrô estava tão lotado que não dava nem pra entrar. Isso sem contar no grande lobby das montadoras de automóvel, que entopem a televisão de propaganda e nos fazem sonhar em ter nosso próprio carrinho desde que somos bebês. A ponto de os maiores sonhos de consumo do brasileiro médio serem, desde pelo menos a década de 1970, a casa própria e o carro próprio (mas isso é assunto para outro texto). É urgente, porém, que a sociedade brasileira tome a consciência de que se todos continuarmos optando pelo transporte particular as cidades irão parar mais cedo ou mais tarde. Já tem algum tempo que os paulistas experimentam essa verdade. A solução para o deslocamento urbano nas grandes e médias cidades é o transporte coletivo e apenas ele. Bastam duas imagens para se comprovar esse fato. Uma delas reproduz a frase de Londoño.



O fato é que, apesar de todas as dificuldades, ou devido a elas mesmas, nós temos que inverter essa lógica. O brasileiro tem que parar de pensar individualmente e passar a pensar coletivamente. Em vez de ficar juntando dinheiro e, muitas vezes, se endividar irremediavelmente para comprar e manter um carro, tem que começar a exigir um transporte público de qualidade: seguro, pontual, confortável e, se possível, por que não, barato. Tem que começar a exigir que as empresas de transporte melhorem seu serviço. Em um setor que se caracteriza pela inércia, se nós não cobrarmos nunca nada vai mudar. Tem que, principalmente, começar a votar em políticos que estejam realmente comprometidos em resolver os problemas da cidade. E o trânsito talvez seja hoje um dos piores deles. E não em políticos que têm ligações escusas com as empresas de transporte, que ganham dinheiro em cima do monopólio das empresas de ônibus, que as defendem das reivindicações da sociedade e das ações do Ministério Público. Transporte público é serviço de utilidade pública, não pode ser fonte de renda! Eu sei que o texto assumiu um tom panfletário e, até mesmo, com pitadas de utopia. Mas se não deixarmos nosso individualismo de lado e começarmos já a lutar por um transporte público de qualidade, de nada adiantará você ter um carro, pois irá tirar o seu carro da garagem na hora de ir para o trabalho apenas para ficar engarrafado 10 metros adiante.


domingo, 12 de fevereiro de 2012

A RUA SEM ALMA

Enquanto continua minha saga para finalizar minha tese, vou publicar mais uma das minhas crônicas antigas. Na verdade, não tenho muitas crônicas antigas para publicar porque alguns anos atrás perdi praticamente todas as minhas crônicas devido a um problema no cd onde eu as armazenava. Devo ter mais umas duas só, além dessa que publico hoje. Essa crônica, se não me falha a memória é mais antiga que a anterior, e teve a honra de ser publicada na Folha do Centro (não sei se ainda existe). Eu me arriscaria a dizer até que ela está um pouco datada. Algumas passagens da crônica denunciam isso.


A Rua Sem Alma
As ruas têm alma, afirmava o cronista João do Rio (1881-1921). O primeiro dos nossos flâneurs, aquele em quem o espírito era mais vagabundo, as curiosidades mais malsãs, dizia que cada rua é um ser vivo e imóvel, com via e destino iguais aos dos homens. E, também como nós, contariam elas com uma individualidade que tem uma fisionomia e uma alma.
Assim, algumas ruas dariam para malandras, outras para austeras, haveria as ruas honestas, as ambíguas, as sinistras, as nobres, as delicadas, as trágicas, as depravadas, as puras, as infames, as guerreiras, as revoltosas, as medrosas, as aristocráticas, as amorosas, as covardes... O nosso amante das ruas, que conhecia cada beco da cidade como se conhece um amigo (quase sempre mal), conseguia desvendar a individualidade de cada rua da sua cidade (que não é a mesma que a nossa).  A rua do Ouvidor era, para ele, fanfarrona; a da Misericórdia, velha e miserável; a das Laranjeiras, conservadora; o Largo do Moura, lúgubre; a Haddock Lobo, burguesa.
Os cariocas hoje, na sua maioria, não amamos mais a rua. Antes as tememos. As ruas todas hoje, para o amedrontado morador da Cidade (ainda) Maravilhosa, são perigosas apenas, e nada mais. Talvez por isso, por influência do espírito do tempo, eu nunca tenha conseguido desvendar a alma das ruas. E isso, apesar de me incluir no pequeno número dos que não as teme, antes as admira. São minhas velhas conhecidas (o que, certamente, é menos do que serem amigas, como eram para João do Rio). Tendo que ir a lugar próximo (ou nem tanto) não me furto o prazer de ir caminhando, interagindo com as ruas, que, para mim, não são só caminhos de passagem obrigatória para o lugar onde pretendo ir. Mesmo assim, às vezes sinto que as ruas, à minha presença, se tornam como que mudas. Hesitam em revelar-me seus segredos, desconfiando da minha amizade.
Assim, credito a essa condição de estrangeiro em sua própria cidade, que caracteriza o carioca da virada do século XX para o XXI, essa dificuldade de comunicação com as ruas. SE até hoje não consegui descobrir que alma tem a rua onde moro há 18 anos, que direi daquelas por onde passei caminhando uma única vez?
Entre estas a Benedito Hipólito, na Cidade Nova. Ligando a Prefeitura (cujo pomposo nome oficial é Centro Administrativo São Sebastião, mas que é conhecido também por outros nomes nem oficiais nem tampouco pomposos) à Central do Brasil, essa rua é, de todas as que conheço, a que mais me dá a impressão de não ter uma alma. Isso porque, caminho árido, vítima do processo de “desurbanização” que criou a Avenida Presidente Vargas e matou o seu entorno, não há nela um único lugar que a caracterize e lhe confira individualidade. Não há nela um único estabelecimento comercial ou imóvel residencial, onde se possa passear vendo vitrines ou admirando a arquitetura. Assim como também não há a sombra de uma árvore, onde um eventual passante possa descansar, fugindo do sol inclemente. Apenas estacionamentos, depósitos de carros e espaços vazios, muitos. Não há nela um único lugar aonde ir, a não ser ao seu fim. O que explica a ínfima quantidade de pedestres que se arriscam a percorrê-la. Não posso admitir que esse vazio que marca hoje a sua individualidade, que neguei frases atrás, seja a característica de sua alma. E ela seja, portanto, não uma rua sem alma, mas uma rua com a alma vazia. Esse artifício não me agrada. Apenas me tira da rota de colisão com João do Rio.
Seus espaços vazios servem a uma função, porém. Necessários que são ao funcionamento, uma vez por ano, da passarela dos desfiles de Escolas de Samba (o Sambódromo), localizada em rua transversal que a corta bem a meio. Estivesse a Benedito Hipólito coalhada de casas, lojas ou edifícios, não poderia ter seu trânsito interrompido para o cercamento do Sambódromo, que a divide em duas partes incomunicáveis durante o reinado momesco. Também não poderia haver nela o espaço hoje conhecido como Terreirão do Samba, onde antigamente se armavam os circos que chegavam à cidade. Espaço do Carnaval popular, a poucos metros daquele outro, hoje reservado, quase que completamente ao usufruto dos turistas. Só então essa rua se enche de gente. Foliões a caminho do espetáculo. Caminhando pelo meio da rua, simbolicamente, na contramão do tráfego cotidiano de automóveis, como que a inverter a ordem natural das coisas. Me dirás então: aí tens a alma dessa rua. Ela é uma rua carnavalesca. Ao que eu respondo: Talvez... Pode mesmo ela ter essa alma misteriosa, que se revela apenas uma vez por ano. Mas hoje, como outrora, quando deveria participar como coadjuvante dos eflúvios momescos que emanavam da falecida Praça Onze, sua vizinha ilustre, berço do Carnaval popular da cidade, ela tem apenas uma alma roubada. Pois mesmo no Carnaval é ela apenas passagem para um outro lugar e não um fim em si mesma como o é, por exemplo, a Avenida Rio Branco. Da mesma forma, tendo sido aquela praça local de intenso comércio e de concentração de cabarés, talvez ela também tenha sido uma rua comercial e boêmia no passado. Quando absorvia o fluxo de pessoas que, da vizinha famosa, vinha ter a ela pelas ruas de Santana e Marquês de Pombal. Mas, hoje em dia todas essas ruas caem no vazio que é a Avenida Presidente Vargas. Território inóspito para flâneurs modernos. E não se chega mais à Benedito Hipólito. Apenas se sai dela para outros lugares.
Festiva, comercial ou boêmia, poderia se dizer também que ela foi uma rua religiosa, devido à solene presença, em uma das suas extremidades, desde 1870, da majestosa Igreja de Santana.  Por ela deveriam passar, bíblia nas mãos, aqueles que se dirigiam à missa, que já foi programa mais concorrido, em tempos idos. Ficaria, então, repleta de gente a conversar, ao fim da concorrida missa de domingo, quando distintas senhoras e suas belas filhas encontrariam outras senhoras igualmente distintas com filhas não menos belas e, conhecidas de há muito, se poriam a combinar almoços na casa de uma ou de outra. Enquanto seus maridos, senhores respeitáveis, conversariam sobre os negócios ou a política dos últimos dias do Império, ou dos primeiros da República. Pessoas que, ao fim de algum tempo de prosa, atravessariam de volta a Benedito Hipólito, em sentido contrário, tornando aos seus lares.
Hoje, porém, a missa já é o programa de domingo preferido das famílias. E, ao fim e ao cabo, a Igreja de Santana está na rua de Santana e não na Benedito Hipólito, e mesmo dá as costas a essa, como que a reprovar ou a censurar aquilo que ela foi um dia, ou ainda é hoje: Rua boêmia, rua carnavalesca, com alma de sambista. Lugar de pensamentos pouco cristãos.
Mas, se por um lado, o passado dessa rua é uma incógnita e, por outro, o seu presente parece ser um grande vazio; pode-se, ao menos, fazer alguma projeção para o seu futuro. A meu ver, continuará ela tendo aquela alma carnavalesca roubada das suas vizinhas, pelo menos enquanto as Escolas de Samba persistirem em cruzá-las uma vez por ano e existir o Terreirão do Samba.
Mas, me arrisco a prever que o seu destino, pelo menos no seu trecho próximo à Igreja de Santana, é o de ser uma rua estudantil. E digo isso pela presença nesse trecho do Centro de Artes Calouste Gulbekian e pela nova Escola Municipal há pouco construída e significativamente batizada de Tia Ciata. Personagem histórico que tinha próxima àquele local a sua residência. Com o intuito de preservar a memória daquele espaço, ao mesmo tempo essa homenagem, como que une o seu passado ao seu futuro. Reforçando a idéia de que o seu presente, pelo menos por enquanto, é um tempo destinado ao esquecimento.

domingo, 3 de abril de 2011

FLANAR: VERBO INTRANSITIVO

Comecemos do início. Pelas definições: flanar é verbo que os dicionários de língua portuguesa não definem. Ou definem mal. “Andar ao acaso”, “Passear ociosamente”, segundo o Aurélio. Paulo Barreto (1881-1921), mais conhecido como João do Rio, o mais criticado e o menos lido dos cronistas da Belle Èpoque carioca, define o termo (que, ao fim e ao cabo, ele ajudou a disseminar) como “perambular com inteligência”. Escreveu ele na sua obra mais conhecida: “Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. (...) é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja...” 
A flanerie, antes do futebol, era o esporte preferido do carioca do início do século XX. Momento em que a área central do Rio de Janeiro, como que por um passe de mágica (a expressão também é de Barreto) se transforma sob a batuta do Prefeito Francisco Pereira Passos (1903-1906). Momento em que o carioca deixa de ter vergonha e passa a ter orgulho do seu espaço urbano. Em que se populariza o hábito de “Fazer a Avenida”, como então se dizia. Que nada mais era do que perambular de uma ponta a outra da recém-inaugurada Avenida Central (Avenida Rio Branco desde 1912) ou sentar na varanda de um dos seus cafés, sempre com o intuito principal de ver e ser visto pela sociedade carioca.
Desde então, o carioca guarda uma relação especial de afetividade com o espaço urbano da sua cidade. Afetividade que, entenda-se bem, não significa cuidado.O carioca bate no peito com orgulho para dizer que é carioca, mas faz xixi nos monumentos históricos do centro (mas esse é tema para outro texto). Mesmo nos momentos mais negros da história da cidade e do país (sem querer confundir as duas), como talvez tenha sido a ditadura militar, o carioca nunca deixou de ocupar o espaço urbano. Fosse para se divertir, para protestar ou apenas de passagem de um lugar a outro. Muito antes que um conhecido prefeito lançasse um vasto plano de obras, que atingiu diversos bairros da cidade, com a justificativa de que queria “devolver o espaço urbano do Rio aos seus moradores”. Balela, nunca houve a necessidade de uma tal “devolução”. O carioca sempre se apropriou do espaço urbano da sua cidade. Para o bem e para o mal. A extensão relativamente pequena da área central da cidade sempre induziu o carioca a se deslocar pelos seus próprios pés. Mas não é apenas no centro da cidade que se anda. Extensa, a cidade é necessariamente “descentralizada”. Cada bairro tem o seu próprio centro, onde os moradores encontram opções de serviços, comércio e lazer. A área central dos bairros mais afastados do Centro (ou da Cidade, como ainda falam os moradores mais antigos) é tão movimentada quanto o Centro da cidade. Hábito que o colapso do sistema de transporte público ajudou a manter, diga-se de passagem. Mas aqui também já estou fugindo do tema e anunciando textos futuros.
Pode até parecer banal, mas essa relação de afetividade (como denominei), do carioca para com o espaço urbano do Rio de Janeiro não é algo facilmente encontrável em outras cidades do país. Morei durante um tempo em uma cidade onde não se andava a pé. Em certos bairros, as ruas nem calçadas tinham! Tudo se fazia de carro. E de carro apenas, porque o transporte público era inoperante, pra variar.  A falta de investimento publico em transporte de massa alimentava, e alimenta ainda, a opção pelo transporte particular na mesma medida em esta opção estimulava aquela falta de investimentos, num círculo vicioso. Qualquer pequena tarefa tinha que ser feita de carro. De todas as estranhezas que eu poderia ter com uma cultura diferente daquela onde fui criado, talvez essa tenha sido a maior de todas. Resultado: eu não tinha vontade nenhuma de freqüentar o seu espaço urbano. Mas, a meu favor, tenho que dizer que essa parecia ser também a opinião dos nativos locais.
Como ninguém andava a pé, exceto no centro da cidade, não se via nas ruas dos bairros orelhões ou mesmo bancas de jornal. Esse fenômeno tão urbano! Onde todas as manhãs aqueles que trabalham nas ruas se aglomeram para ler as manchetes do jornal pendurado do lado de fora. Aliás, essa reflexão me fez lembrar de uma época em que trabalhei relativamente perto de casa. Tinha que estar no trabalho as nove, e em vez de encarar um ônibus lotado logo pela manhã, optava por ir a pé para o trabalho. Creio que não há melhor maneira de se informar sobre os últimos acontecimentos. Ia pelo caminho pescando fragmentos de conversa e admito que, quando tinha tempo, também parava para ler as manchetes na banca de jornal. Chegava no trabalho já completamente informado “das últimas”. Algumas vezes ficava sabendo de acontecimentos antes mesmo da imprensa. Um acidente que havia acabado de ocorrer na saída do túnel, uma operação policial feita naquela mesma manhã em alguma “comunidade” próxima, etc. Nâo se pode dizer que eu flanava até o trabalho, afinal de contas eu tinha destino e horário. Mas, quem sabe, essa não é a flanerie desses tempos corridos? Afinal de contas, não temos mais o tempo de João do Rio. E essa frase pode ser interpretada de diversas maneiras...
Um professor e amigo sempre dizia: “Se quiser conhecer uma cidade, perca-se nela!”. Perder-se implica em andar pela cidade, entrar em seus becos mais escuros, nas vielas mais sujas, para ver apenas onde ela vai dar. E foi me perdendo pelo Rio que descobri diversas maneiras de chegar a um mesmo lugar, assim como quais lugares evitar. Acostumado com a prática, não é por acaso que procuro “me perder” em todas as cidades por onde passo. Nas minhas viagens, sempre separo um tempo para sair do roteiro turístico tradicional, pegar um ônibus, descer no centro da cidade e flanar. Aí sim, sem destino e sem horário. Será que estamos condenados hoje a flanar apenas na cidade dos outros? Dessa forma, os papéis se invertem, e passamos a conhecer mais do espaço urbano das cidades que visitamos do que da nossa própria cidade. Onde seremos eternos estrangeiros. Fazendo o mesmo caminho cotidianamente, da casa para o trabalho e do trabalho pra casa. Recuso-me! Andando pelo Rio descobri o meu amor não só por essa cidade. Mas o amor pela cidade. Pela vida urbana. Esse blog tem a pretensão de ser um espaço de reflexão de todos aqueles que, como eu, se recusam a ser estrangeiros na sua própria cidade. E se, com os meus textos, eu estimular alguém a por a cara na rua e flanar pela sua cidade, pago-me da tarefa com lucro.